Lira
Ilustração abstrata das fases do ciclo menstrual, com ondas de energia e um cérebro

PHDA e ciclo menstrual: porque é que os sintomas pioram antes da menstruação

Porque é que a PHDA pesa mais na fase lútea, o que o estrogénio tem a ver com a dopamina e o que ajuda, da medicação à PDPM. Por uma neuropsicóloga.

Mariana Lucas Aguiar, Neuropsicóloga••8 min de leitura
PHDACicloHormonas

Há semanas em que o cérebro colabora. Respondes aos emails, lembras-te da consulta no dentista, até começas aquela tarefa que andavas a adiar. Depois, uns dias antes da menstruação, o mesmo cérebro perde as chaves, chora com um anúncio e lê o mesmo parágrafo três vezes.

Se isto te soa familiar, não é impressão tua. Em muitas mulheres com PHDA, os sintomas acompanham o ciclo. Saber quando vêm os dias difíceis não os faz desaparecer. Mas deixam de te apanhar desprevenida.

O que as hormonas têm a ver com a PHDA

A PHDA está muito ligada à dopamina, o mensageiro químico que ajuda na atenção, na motivação e em segurar um pensamento tempo suficiente para agir. O estrogénio apoia a atividade da dopamina no cérebro. Com mais estrogénio, a dopamina tende a funcionar melhor. Quando o estrogénio desce, a dopamina desce com ele.

A progesterona junta outra camada. Sobe depois da ovulação e tem um efeito calmante, um pouco sedativo, que algumas mulheres sentem como nevoeiro mental ou apatia.

Num estudo de 2018, Roberts, Eisenlohr-Moul e Martel acompanharam mulheres diariamente ao longo do ciclo e viram que os sintomas de PHDA subiam quando o estrogénio descia e a progesterona subia. O efeito era mais forte nas mulheres que já eram mais impulsivas. O padrão variava de mulher para mulher, e é por isso que registar o teu próprio ciclo diz-te mais do que qualquer esquema de fases "típicas".

O ciclo, fase a fase

Os dias abaixo partem de um ciclo de 28 dias. O teu pode ser mais curto, mais longo ou irregular (ciclos irregulares são comuns, e contam na mesma).

Menstruação (mais ou menos dias 1 a 5)

Estrogénio e progesterona estão baixos. Muitas mulheres sentem cansaço e dores, mas algumas também sentem alívio, porque a tempestade pré-menstrual já passou. Se puderes, planeia dias mais leves. É uma boa altura para olhar para as últimas semanas e perceber o que te gastou.

Fase folicular (mais ou menos dias 6 a 13)

O estrogénio sobe, e a atividade da dopamina também. Para muitos cérebros com PHDA, é o período mais fácil: mais foco, mais motivação, menos coisas esquecidas. Se tens algo grande para começar, um prazo ou uma conversa difícil, esta costuma ser uma boa janela.

Ovulação (por volta do dia 14)

O estrogénio atinge o pico. Algumas mulheres sentem-se sociáveis e confiantes. Outras ficam inquietas ou impulsivas, um bocadinho "demais". As duas coisas são normais. Atenção às compras por impulso e a dizer que sim a tudo.

Fase lútea (mais ou menos dias 15 a 28)

A progesterona sobe e, na última semana antes da menstruação, as duas hormonas caem a pique. É nesta descida que muitas mulheres com PHDA descrevem os piores dias. A concentração foge. As emoções batem mais forte e mais depressa. Uma crítica dói o dobro. Tarefas que fazias bem na semana anterior passam a precisar de três tentativas.

A explicação curta: menos estrogénio significa menos apoio à dopamina, precisamente quando o cérebro mais precisa dele.

Quando é mais do que síndrome pré-menstrual: a PDPM

A perturbação disfórica pré-menstrual (PDPM) é uma forma grave de alteração pré-menstrual. Traz humor muito em baixo, ansiedade, irritabilidade ou desesperança na fase lútea, que aliviam poucos dias depois de a menstruação começar.

A PDPM parece ser bastante mais frequente em mulheres com PHDA. Dorani e colegas (2021) verificaram que cerca de 45% das mulheres seguidas numa consulta de PHDA referiam sintomas de PDPM, muito acima dos 3 a 8% estimados na população geral. Um inquérito feito no Reino Unido em 2025, por Broughton e colegas, encontrou PDPM cerca de três vezes mais em mulheres com PHDA do que sem. Os dois estudos usaram autorrelato ou uma única entrevista, e um diagnóstico formal de PDPM exige dois ciclos de registos diários. Os números exatos podem mudar. A direção é clara.

Se a semana antes da menstruação te deita abaixo todos os meses, ou traz pensamentos que te assustam, fala com o teu médico de família ou psiquiatra. Tem tratamento, e não precisas de provar primeiro que é "grave o suficiente".

Medicação para a PHDA e o ciclo

Muitas mulheres dizem que a medicação estimulante parece fazer menos efeito na semana antes da menstruação. Se notares isto, aponta.

Por favor, não mudes a dose por tua conta. Leva antes uns meses de notas a quem te prescreve: que dias foram difíceis, o que notaste, quando começou a menstruação. Assim, "acho que às vezes está pior" passa a ser informação com que o médico consegue trabalhar.

Perimenopausa: a mesma história, mais alta

Na perimenopausa, o estrogénio deixa de subir e descer com ritmo certo e passa a oscilar sem aviso. Para muitas mulheres com PHDA, isto parece uma fase lútea que dura meses. É também a altura em que algumas mulheres procuram pela primeira vez uma avaliação de PHDA, porque as estratégias que funcionaram durante anos deixam de chegar.

O que ajuda mesmo

O objetivo é simples: planear à volta das semanas difíceis para que te custem menos.

  • Regista duas coisas durante dois ou três ciclos: a tua energia em cada dia e o dia em que a menstruação começa. Os padrões aparecem mais depressa do que pensas.
  • Quando puderes escolher, põe as coisas pesadas na fase folicular.
  • No fim da fase lútea, baixa a fasquia de propósito. Menos compromissos, mais lembretes externos, mais tempo de margem.
  • Diz às pessoas mais próximas quais são os teus dias difíceis. "Estou no dia 25" chega como explicação.
  • Leva as tuas notas ao médico, sobretudo se tomas medicação ou suspeitas de PDPM.

Onde entra a Lira

A Lira é uma app para mulheres neurodivergentes que regista a tua energia ao lado do ciclo, para veres o teu padrão em vez de adivinhares. Os registos da manhã e da noite demoram segundos. Ao fim de umas semanas, a Lira mostra como a tua energia se move ao longo das fases e sugere o que pode ajudar no dia que estás a ter. Se quiseres partilhar com a tua psicóloga, podes.

Regista a tua energia e o teu ciclo com a Lira

Criada por neuropsicólogas para mulheres neurodivergentes

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Perguntas frequentes

Porque é que a PHDA piora antes da menstruação?

Nos dias antes da menstruação, o estrogénio cai a pique. O estrogénio apoia a dopamina, que no cérebro com PHDA já é mais escassa. Por isso a atenção, o humor e o controlo dos impulsos ficam muitas vezes mais difíceis.

O que é a fase lútea e como afeta a PHDA?

É a segunda metade do ciclo, da ovulação até à menstruação. A progesterona sobe e depois as duas hormonas descem. A última semana é quando muitas mulheres com PHDA sentem os piores sintomas.

A medicação para a PHDA pode deixar de funcionar antes da menstruação?

Muitas mulheres sentem o estimulante mais fraco nessa semana. Não ajustes a dose sozinha. Regista os sintomas e fala com o médico que a prescreve.

A PDPM está ligada à PHDA?

Cerca de 45% das mulheres numa consulta de PHDA referiam sintomas de PDPM (Dorani e colegas, 2021), e um inquérito de 2025 no Reino Unido encontrou PDPM cerca de três vezes mais em mulheres com PHDA do que sem. Se as alterações de humor antes da menstruação forem fortes, pergunta ao teu médico pela PDPM.

A PHDA piora na perimenopausa?

Em muitas mulheres, sim. O estrogénio fica imprevisível e sintomas que estavam controlados podem tornar-se mais difíceis de gerir.

A PHDA pode afetar a menstruação?

A PHDA não causa menstruações irregulares, mas o stress, o sono e alguns medicamentos podem mexer com o ciclo. Se o teu ciclo mudar muito, fala com um médico.

Referências

  • Roberts, B., Eisenlohr-Moul, T., & Martel, M. M. (2018). Reproductive steroids and ADHD symptoms across the menstrual cycle. Psychoneuroendocrinology, 88, 105-114.
  • Dorani, F., Bijlenga, D., Beekman, A. T. F., van Someren, E. J. W., & Kooij, J. J. S. (2021). Prevalence of hormone-related mood disorder symptoms in women with ADHD. Journal of Psychiatric Research, 133, 10-15.
  • Broughton, T., Lambert, E., Wertz, J., & Agnew-Blais, J. (2025). Increased risk of provisional premenstrual dysphoric disorder (PMDD) among females with attention-deficit hyperactivity disorder (ADHD): Cross-sectional survey study. British Journal of Psychiatry, 226(6), 410-417. doi:10.1192/bjp.2025.104

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Se estás a passar por um momento difícil, fala com um profissional de saúde.